Crônica

Pequeno Paraíso Secreto

Pequeno Paraíso Secreto

Tudo pode ser diferente. A gente nunca sabe quando é que o dia não vai ser somente ''mais um dia'', mas sim ''o dia''. Acordamos sem sequer imaginar o que será dali pra frente. E mesmo quando a gente se programa, anota na agenda ou parece saber de cor como passar aquelas próximas vinte e quatro horas, ainda assim, tudo pode ser diferente.

Foi absurdamente fantástico o que me aconteceu naquele dia. Acordei, pensando que seria somente ''mais um dia''. Ledo engano o meu. Era domingo e fui ao parque. Cheguei, e não havia uma árvore disponível para que eu pudesse me recostar. ''Aos domingos, as pessoas vão mais aos parques do que nos outros dias'', constatei. As vagas à sombra estavam todas ocupadas. Infelizmente, ainda não haviam inventado nenhum sistema organizado de fila de espera com senhas ou fitas amarelas demarcadas nos gramados dos parques que costumo freqüentar.

Por fim, esperei um casal sair e finquei minha bandeira ali, marcando território. Era uma árvore minguada, de galhos curtos e folhas secas, próxima ao lago dos patos. Havia encontrado o meu lugar à sombra. Forrei uma canga ao lado do tronco, me enfiei nuns óculos escuros, pus um fone de ouvido e comecei a ler um livro, deitada aos pés daquele lânguido arvoredo.

Meu contato com a natureza começava a se estabelecer ali. Aquela paisagem, aquela música de fundo, o cheiro da grama, o céu azul, tudo parecia um paraíso formidável. O problema é que havia uma tensão no ar. Os patos. Sim, eles andavam de um lado pro outro, inquietos, ameaçavam bater asas, estabanados, se movimentavam desordenadamente, incontroláveis, festejando o domingo.

Abro aqui um parênteses para contar que, desde a infância, tenho fobia a bichos de asas. Eles se apresentam inofensivos mas, não se enganem, quando a gente menos espera eles se revelam: danam-se a bater asas, vão pra cima, atacam, cacarejam, fazem ruídos estranhos, esperneiam, olham nos olhos de suas vítimas e podem até mesmo morder o pescoço da gente se tiver qualquer oportunidade. Já fui perseguida por um marreco, já corri léguas de uma galinha e, pasmem, os pombos na calçada não me dão passagem! Mas também não discuto, tenho receio de que eles venham me bicar e, sutilmente, desvio o caminho.

Deitada, em meio àquele paraíso tenso, fitava o céu entrecortado por aqueles galhos curtos com suas folhas secas. Era tudo tão poético, tão aprazível! A música corria solta, percorrendo os meus ouvidos e o corpo inteiro. Ora eu fechava os olhos e cantarolava inebriada por aquele momento, ora inclinava o pescoço pros lados só para checar se eles, os patos, continuavam lá na beira do lago, mantendo uma certa distância do meu território.

E pareciam comedidos, banhavam-se pra lá e pra cá, a metros de distância do meu pequeno paraíso. A leitura estava num ponto muito interessante, minha posição era confortável e eis que acabei relaxando, distraída ali, à mercê deles: os patos. O livro havia chegado ao fim. E que desfecho fascinante! Fechei os olhos pensando naquilo tudo, comecei a cantar o que vinha aos ouvidos, cada vez mais alto. Eu estava em transe.

Quanta inocência a minha, achar que estava a salvo deles, os patos. Passaram-se uns dez minutos de êxtase e, mal abri os olhos, dei de cara com um pato à espreita, quase encostando seu bico na ponta do meu nariz. Estávamos cara a cara. Dei uma recuada, larguei o fone de ouvido, acabara ali todo o meu sossego. Ameacei sacudir minha bolsa na direção dele, o pato. Mas nada, ele continuava ali, decidido. Era uma criatura gorda e serelepe. Eu já estava a ponto de entrar em pânico. Será que ninguém estava vendo aquele despautério? Não havia uma pessoa atenta que pudesse me socorrer? Fiquei ali, imóvel. O medo me paralisava. Aí vem a pior parte, meus caros! Sim, tem mais! Ele falou comigo! Eu disse F-A-L-O-U!!!

Em retrospectiva: Era domingo, eu cheguei ao parque, lutei por uma vaga à sombra de uma arvore, deitei, terminei de ler um livro, cantei de olhos fechados e dei de cara com um pato gordo que parecia me intimar. E, por fim, ele falou comigo. Quase caí pra trás quando ele disse: ''Oi, o meu nome é Xérxes. O meu nome é Xérxes e eu só tenho quatro anos''. Eu não conseguia dizer nada, mas ele permanecia ali, insistente: ''O meu nome é Xérxes, eu só tenho quatro anos e sou um pato gordo. O meu nome é Xérxes, eu só tenho quatro anos, sou um pato gordo e gosto de conversar com pessoas''.

Diante daquela situação inusitada, achei por bem agir com normalidade e aceitar tudo aquilo. Fui prestando atenção no que ele dizia, no jeito como falava e foi chocante cogitar que devia estar ficando louca. Sim, eu estava ali conversando com um pato gordo, que atendia pelo nome de Xérxes e que, claramente, sofria de algum tipo de TOC. Vocês não estão acreditando, não é? Pois é, nem eu! Mas o pato repetia: ''O meu nome é Xérxes e eu só tenho quatro anos. O meu nome é Xérxes, eu só tenho quatro anos , sou um pato gordo e gosto de conversar com pessoas''.

Todas as frases que ele soltava vinham acompanhadas delas mesmas. Ele tinha a necessidade de falar e repetir. E quando finalmente o questionei: ''Porque você fala assim?''. Ele me respondeu: ''Assim como? Assim como?''. Fui mais a fundo: ''Assim desse jeito. Repetindo tudo, toda hora''. E, finalmente, ele me explicou: ''Só posso falar aos pares. Só posso falar aos pares e elas, as frases, me atormentam. Elas, as frases, me atormentam. Assim que sai uma frase da minha boca, vem logo outra igual na seqüência e, se eu não botar pra fora, eu posso morrer engasgado. Assim que sai uma frase da minha boca, vem logo outra igual na seqüência e, se eu não botar pra fora, eu posso morrer engasgado. Morrer de verdade! Morrer de verdade!''.

Eu estava mesmo precisando de uma camisa de força. Um pato gordo, com TOC, falava comigo bem no meio do parque e eu ainda dava atenção, me preocupava, respondia. Era uma louca, só podia! Havia algo nele que me cativava. Assim como eu, ele parecia também não ter muito entrosamento ou aproximação com os outros seres de sua espécie, os outros patos. Talvez se sentisse deslocado, medíocre ou mesmo desconfiasse de que poderia ser de outro planeta.

O fato é que ele era diferente. Não andava com seus semelhantes, não parecia festejar o domingo. Era gordo, tinha TOC e gostava de conversar com pessoas. Realmente havia algo que me cativava naquele pato. Assim como ele, eu também não sentia prazer em conversar com seres da minha espécie, humana. Não via sentido em festejar domingos, era gorda e....apesar de não sentir essa necessidade de ''botar pra fora'' a mesma frase aos pares....eu costumava ''botar pra fora'' tudo o que comia pois achava que, se não o fizesse, poderia também morrer engasgada.

Eu entendia aquele pato, e mais, já gostava dele, mesmo sendo um bicho de asas. Conversamos a tarde inteira, ali sentados naquela grama, à beira do lago. Ele falava e depois repetia. Xérxes, o pato, além de gordo e serelepe era também inteligente e tínhamos em comum uma série de perguntas. Uma série de perguntas sem resposta. Era gostoso conversar com ele. Eu me sentia num pequeno paraíso secreto.

Lá pelas tantas, avistamos um velho mendigo que vagava por ali. Suas roupas estavam em frangalhos, tinha a barba por fazer e trazia nas mãos um pacote. Parou no centro do parque, abriu aquele embrulho que carregava e começou a distribuir migalhas de pão para todos os bichos de asa que habitavam aquele lugar. Pombos, pássaros e patos que estavam mais distantes, correram para perto daquele velho. Ele estava cercado de bichos. E Xérxes não hesitou em caminhar para lá.

Fiquei ali ainda alguns instantes vendo aquilo tudo. Todos os patos rodeavam aquele velho mendigo e meu amigo Xérxes estava entre eles. De longe, ele parecia ser somente mais um pato, dentre tantos outros. De perto, apenas eu sabia que ele poderia se revelar tão extraordinariamente diferente.

Tudo pode ser diferente. A gente nunca sabe quando é que o dia não vai ser somente ''mais um dia'', mas sim ''o dia''. Acordamos sem sequer imaginar o que será dali pra frente. E mesmo quando a gente se programa, anota na agenda ou parece saber de cor como passar aquelas próximas vinte e quatro horas, ainda assim...tudo pode ser diferente.


Texto: Maíra Viana
Ilustração: Ariel Fajtlowicz

*Registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.

Por Maíra Viana, em Novembro de 2009

Comentários

  1. Raphaela Nogueira em 05/08/2010 15:02:07

    cara, muito bom *-* AMO crônicas, amei as suas :D

  2. Glaucia Albuquerque em 24/06/2010 16:16:11

    Conheci as musicas do TM a um tempo atrás amei, entrei no site e acabei achando o seu, maravilhosas as suas crônicas...PARABÈNS!!!

  3. Miguel Sartori em 20/06/2010 21:13:03

    CARICAS! Que coisa, hein? Uma visitinha "como qualquer outra" à internet que me leva ao youtube, de lá às músicas do Teatro Mágico, de lá ao site do TM e de lá pra cá. De cá, pra um dia diferente. Sim, tudo pode ser diferente! Que texto leve. Diliça!!!

  4. Pedro Larroza em 17/06/2010 06:14:26

    Maíra (dirijo o comentário a você, cogitando a possibilidade de que o leia... quiçá.) A crônica/conto me fez gargalhar diversas vezes, numa madrugada enfadonha e depressiva, o que já é mérito suficiente, já que sou famoso por minha rabugice. Para completar, é uma alegoria deliciosa cheia de insights sobre a condição humana. Mais pontos pra você. Se tudo isso não bastasse, haveria também o elemento do mendigo: mesmo que ele não seja um personagem psicológico, ou coloque um ponto de vista, ele lá está. Um andarilho do parque. Um "vagabundo", como cantou Chico ou encenou Chaplin. Já é um reconfortante sopro de relevância social que evita a distopia burguesa que se tem visto tanto por aí. (não que seria "distópico" ou "burguês" se ele não estivesse no texto, claro... é só... reconfortante, repito. Assim, um bônus). Enfim, este rabugento leitor acaba de se tornar um frequentador assíduo. Obrigado, em nome do público, por seus textos recheados e saborosos. Pedro Larroza. Ps.: Soube da sua obra através da trupe de Anitelli, que tem um grande talento, mas, na minha opinião, devia colher suas colaborações com ainda mais freqüência!

  5. nayara em 17/04/2010 23:34:42

    O que senti: às vezes programamos tanto nossas vida, inclusive as pessoas com a qual nos relacionamos,esquecendo-nos que tudo pode ser diferente. Muitas e muitas vezes julgamos errado as pessoas simplesmente por acontecimentos do passado, esquecendo-nos mais umavez que entre tantas pessoas "iguais" todas têm suas peculiaridades. Assim, se lembrarmos que todos que estao a nossa volta ou não têm suas diferenças, podemos comprovar que os dias não serao só mais um dia e sim serão dias em que poderemos viver experiencias diferentes, precisamos apenas estar abertos a isso.

  6. Mari em 15/04/2010 10:15:43

    Maíra, amei a crônica.... Cada um de nós temos um pouco do pato Xérxes dentro de nós... até costumados repetir frases(falar aos pares) para sermos melhor entendidas... Sucesso... adoro vc.

  7. Luiz Eduardo Melo em 05/04/2010 00:44:06

    Fascinante, continue assim!

  8. Tony Lopes em 10/12/2009 09:26:50

    Eu acho que sou um pato gordo com TOC :(

  9. Renato Rush em 03/12/2009 15:18:43

    Maira, crônica maravilhosa e muito esclarecedora, pois não esperamos nada dos dias e quando estamos tranquilos na nossa inércia, algo inesperado nos mostra que realmente um dia pode ser o melhor dia só que nunca saberemos qual deles será. visitem: renatorush.blogspot.com

  10. maria leticia em 22/11/2009 01:07:39

    grande Xérxes,incrivelmente criantivo e delicioso de imaginar. Parabéns Maíra linda.

  11. Daniel de Araujo Dutra em 18/11/2009 14:40:32

    O bom é que o Xérxes se conhece bem, até admite que é um pato gordo. Parabéns pela criatividade no momento de construir esse texto. Você retratou com precisão como o nosso dia às vezes pode se tornar "o dia". A gente até se programa mas ainda assim...tudo pode ser diferente.

  12. Priscila em 18/11/2009 02:37:29

    Perfeita a cronica Maíra. Me apresenta o Xérxes?! Eu simplesmente amo como a menina das palavras escreve, tudo que ela escreve é perfeito! Melhor de tudo foi ler a cronica imaginando a cena acontecendo...rsrs....Maíra Parabéns por mais um texto maravilhoso!

  13. Lud em 17/11/2009 15:51:56

    vim conhecer o Xérxes que Maira comentou no Twitter (: Me fez relembrar de quando eu adorava escrever, ficava inventando histórias... perdi esse hábito, saco! Vou continuar lendo as cronicas de Maira, quem sabe elas não me inspiram, eu volte a colocar minhas fantasias no papel :D

  14. Andressa em 17/11/2009 15:32:43

    Maravilhoso como sempre... Um dia vou ter coragem de publicar tudo que já escrevi...vai parecer plágio....rs! "Pequeno Paraíso INTERNO"...rs!Amei mais uma vez

  15. Dayane Soares Vicente em 17/11/2009 14:48:24

    hahahahaha! Ri bastante. Agente nunca sabe, realmente.

  16. Patricia Ramalho em 17/11/2009 13:55:56

    ... e tudo era tao poetico... ainda bem que o dia sempre pode ser diferente!

  17. Guta em 17/11/2009 13:47:35

    cara, de onde vc tira tanta criatividade heim?? muito bom o texto!! parabens e obrigada por nos proporcionar alguns instantes de paraíso tb!! ahh...e adorei o deseinho, mto fofo!!!

  18. Cecilia Bastos em 17/11/2009 13:27:13

    muito legal esse texto!! dei mta risada!! e ele nos emociona qdo fala dos "excluídos", dos "diferentes".....lindo, lindo!

  19. Cristian Fernandes Ferreira em 17/11/2009 13:01:48

    Muito boa a crônica... Cada pedaço, cada frase nos passa uma sensação diferente, do momento, das lembranças, dos medos e dos sentimentos envolvidos. =] Adorei!

  20. carlos eduardo em 17/11/2009 12:41:19

    adorei o desenho do xerxes...rsrs....quero a continuação da historia...rs...

  21. Mariana Costa em 17/11/2009 09:20:55

    Tive que concordar:essa crônica veio a calahar para a manhã. Tão leve quanto a paisagem descrita! Parabéns, muito bom!

  22. Erika Neves em 17/11/2009 09:01:08

    Gostaria de conhecer o Xérxes rsrsrsrsrs Amei a crônica... Realmente faz todo sentido..

  23. Biba Campos em 17/11/2009 04:35:14

    Essa crônica veio a calhar para amanhã. Linda linda! ^^ Vou passar aqui mais vezes :*

  24. @metheoro em 17/11/2009 01:20:31

    hahahaha adorei o xerxes. adorei a leitura. adorei a fábula. E adorei principalmente o fato REAL, você tem mesmo medo de bichos de asas. hahahaha :*

  25. Mari Andreotti em 17/11/2009 01:01:47

    Cara. eu simplesmente adorei! O tal pato Xérxes prendeu minha atenção até o fim! Crônica excelente, essas que vale à pena a gente recomendar a um amigo, sabe?! parabéééns!

  26. Marcio Valle em 17/11/2009 00:51:20

    Amo seu jeito de cativar em suas palavras. Se eu fizer isso aqui em Curitiba, la no Barigui, conversando com uma Capivara (delas sim, eu tenho medo). Ja imaginou? hehehehe Parabens pelo texto! Faz a gente refletir sobre a simplicidade da vida!

  27. Giovanna Brantes em 16/11/2009 14:57:32

    hahahahhaha....adorei essa historia...quero encontrar com um pato assim tb....que delicia esse texto, maira...parabens...

  28. Raquel Polastre em 16/11/2009 12:26:04

    Nossa ameiii a crônica... Adoro o jeito a maneira de como escreve, a simplicidade q nos contagia ao ler... Beijaooo adoro vc! Grande fã!!