Vendaval

Vendaval
  • 09/09/2014

Sou possuída por ventos de alta tensão, ao léu de minhas vontades. Voejam por entre as vértebras de minha coluna. Correm pelas veias e sacodem os véus de minha vaidade. Alisam as anáguas dos meus vestidos. Viver tomada de ventanias não é fácil, porra! Mas sou… Aquela com vocação para o movimento… De pés intranquilos e mãos inquietas… Escrevo exageradamente! Passo da conta…Extrapolo! Dou vexame, me vendo, aumento o volume, coloco mais sal…sou toda desastres e devaneios! Vomito o amor que reclama posse e varro a solidão pra debaixo da cama… Sou Avalanche! E vocifero: Vem comigo ser… Humanamente Vendaval.  …

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Colegas de quarto…

Colegas de quarto…
  • 08/09/2014

A moça chegava em casa e dava de cara com a solidão. Esparramada no sofá. Impunha-lhe canais de TV, ocupava os espaços da sala, incomodava o quanto podia. Bagunceira, barulhenta, folgada era a solidão. E comilona também. Tomava os iogurtes todos de uma vez. Mal-educada ainda arrotava. A solidão era mais que uma hóspede, era sua sombra em excelência. Aquele convívio estava ficando impossível. Alguém ia ter que sair. A casa estava ficando pequena demais para ambas. Era muita audácia de sua solidão tomar para si a cozinha, o quarto e o banheiro. Restava à moça a área de serviço. Dormia…

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Curto-Circuito!

Curto-Circuito!
  • 06/09/2014

Às vezes, a minha máquina de lavar não funciona como deveria. Os meus tecidos não centrifugam o suficiente. Deve ser a oscilação da força da gravidade das coisas. Ou meu sistema nervoso que anda histérico. A vida me cobra. Faça mais, com menos custo. Meus eletrodomésticos não correspondem. Meu cabelo não cresce. O sal que coloco na minha comida nunca me basta. Os sonhos parecem sair do ar junto com meus canais de TV. O técnico veio instalar a fibra ótica ontem e descobriu que meus cabos estão todos invertidos. Desde a infância. Meus vestidos amanheceram mofados dentro da geladeira….

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Imersão…

Imersão…
  • 05/09/2014

Eu me namoro. Há uma mulher dentro de mim que me salva quase toda manhã. Partilhamos o mesmo espaço-corpo. Nesse nosso lugar, há um rio-placenta que nos bebe e traga. E quando cedo à entrega do repuxo, a minha mulher acintura toda minha existência. Se apodera de nós e desvia meu sentido-imersão. Nossos olhos disponíveis desafiam a ardência do sal das águas. Respiramos juntas no colo das ondas. Nossos vestidos-dilúvios se derramam em carícias. Somos feitas de chuva. Úmidas. Aquosas. Ribeirinhas. Pequenas sereias. Tempestuosas. Iemanjás… E consagramos o que o mar nos manifesta: amor líquido. Texto: Maíra Viana Fotografia: Brooke Shaden…

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Sobrevoo…

Sobrevoo…
  • 03/09/2014

Há dias em que o vento me puxa pra fora do mundo. Eu sinto um cordão se enroscando ao redor da minha cintura. Vem manso como um laço de fita, me aperta, me sufoca, até deixar de ser laço para virar um nó. A dor se ata em mim, sutil, alcança meu ponto de estrangulamento. É quando meu corpo se entrega, a musculatura rija se dissolve…. e me torno líquida…pronta para a serenidade de um novo aprendizado.   Texto: Maíra Viana Fotografia: Brooke Shaden Trilha Sonora: Merry Christmas Mr. Lawrence, de Ryuichi Sakamoto  

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O fazer manso…

O fazer manso…
  • 01/09/2014

Manuseio minha roca de fiar em delicados gestos de paciência. Ando serenando a pressa com colheradas de calma! Minhas mãos dançam com amor enquanto trabalho. Bordo tempos verbais. Estou tecendo sensibilidades que nunca dantes. Não posso ter medo de ser criativa! Dar um passo de cada vez é colocar intenção no que manufaturamos em nós. Confecciono minhas essências, miudinha, em silêncio. Não posso ter medo de ser quem sou!  Estou aqui costurando, pequenininha, sem ter ainda a dimensão exata do que estou fazendo. Acho que isso se chama intuição. Fazer… sem saber porquê! Não posso ter medo de ser inventiva. Confio nas…

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Eu, semente…

Eu, semente…
  • 27/08/2014

Há uma parte nova de mim querendo nascer. Meu corpo revela um continente selvagem. Solo que nunca habitei. Ao sabor da boa ventura, aceito o convite. Vou. Refaço o contato perdido com o chão. Eu, semente. Deito, deslizo, rolo. Afeiçoo-me à natureza do gesto. Sou um ser físico! Uma luz se acende num órgão desconhecido de mim. Clareia as folhas de meus cadernos. Escrita que flui, frases que vão e vem, serpenteiam-se, desprendem-se dos limites da seda. As palavras se descobrem elásticas diante de minhas fibras poéticas. Atrevem-se. Por aqui, percepções de tecidos mais fluidos. Cartilagens que se regeneram. Minha pele-pétala…

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Arrebentação!

Arrebentação!
  • 26/08/2014

Eu não vou mais me apequenar para caber no mundo. Não vou deixar de ir ao baile pela ausência do traje adequado e, lamento, mas, daqui pra frente, nada de sorrisos forçados. Ah, e tem mais: eu não vou pedir desculpas pela cor dos meus sapatos. Os meus métodos e a medida dos meus quadris são a minha identidade. Eu não vou mais ser discreta e nem varrer os sonhos pra debaixo do tapete. Eu não sou um currículo e não vou mais me esmagar pra encaixar meu corpo dentro de um uniforme. Eu não nasci de uma fôrma, de…

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Metro-Desejo!

Metro-Desejo!
  • 08/08/2014

Querido Príncipe, seja meu sapo… Me acorde com frases vermelhas e me enrede em teu dorso verde-escamas, maculando os lençóis brancos do nosso metro-desejo. Repare no batom caminhando para fora dos lábios, no enfeite orquídeo que me ocorre aos cabelos, no volume do pouco seio que escapa ao vestido. Querido Príncipe, seja meu… Alicie o dragão que toma conta do reino que existe bem debaixo das minhas saias. Dê-me o beijo do despertar, elevando-me em quarenta graus a temperatura da malícia…Ahh, sonho! Sonho o nosso encontro convidançante. Para logo! Querido Príncipe, apenas seja…   Texto: Maíra Viana Fotografia: Ana Tomás

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A Rifa

A Rifa
  • 07/08/2014

Então, vou ter que rifar!! E tem esse jeito novo de se relacionar: Ficar!! Tudo beira a superfície dos corpos!! Os órgãos internos? Estão todos mortos! E cinco minutos de orgasmo valem mais que qualquer excelência em atenção! As pessoas se permitem gozar das mais variadas formas, mas não se permitem se dar. As bancas de revista estampam a nudez em capas! Mas, espera! Tudo tem um preço! Quanto ela ganhou pra posar? E ele, quanto levou pra fotografar? Quanto custa cada exemplar? Quanto de prazer você pode me dar?  Porque é apenas esse o seu valor! Então você deve…

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